Os "cinzentos"

Espécie cada vez mais dominante, os "cinzentos" estão em todo o lado: nas nossas relações pessoais, profissionais, institucionais... Ainda que com motivações diferentes (a daí as várias subespécies de "cinzentos"), todos eles tentam (e frequentemente conseguem) passar pelos pingos da chuva sem se molharem.
Os "cinzentos" podem caracterizar-se também por andar ao sabor do vento, tendo o cuidado de ver para onde corre a maré, de modo a navegar, sem grandes sobressaltos, conseguindo, por isso, o incrível feito de tanto estar bem com Deus como com o Diabo.
Os "cinzentos" habitam uma zona de conforto (da qual se recusam a sair - sabe-se lá os perigos que espreitam para lá dela...) e justificam a necessidade de aí permanecerem com argumentos como "é a minha forma de viver em paz" ou "faço tudo por uma vida tranquila".
Apesar
de encerrados nessa zona de conforto, os "cinzentos" têm conhecimento
do que se passa em seu redor e até comentam à boca pequena que o que se
passa lá fora está errado, é injusto, tem até reflexo negativo na sua
vida, mas nada disso os faz abdicar da paz e da tranquilidade que
reclamam para a sua vidinha. Quando muito, usam alguns "não cinzentos"
como "pombos-correio", confidenciando-lhes a sua insatisfação para que
estes a transmitam a quem de direito e no lugar certo, mas não sem
antes lhes pedir encarecidamente "se fores dizer alguma coisa, não digas
que fui eu que disse". Há lá alguma coisa que chegue a uma vida em paz e
tranquilidade...
Os "cinzentos" dificilmente tomam uma posição que possa abruptamente retirá-los do seu habitat e deixá-los expostos a perigos que ponham em causa a sua paz, a sua tranquilidade. Os "cinzentos" assistem, indiferentes, a injustiças, a humilhações, a agressões... Tudo em nome da sua paz e da sua tranquilidade. São capazes de dizer a uma vítima o quanto lamentam o que ela sofreu, mas não levantam um dedo para evitar que volte a acontecer a essa ou a outras potenciais vítimas.
Os "cinzentos" estão firmemente convictos de que o seu cinzentismo os reveste de uma invisibilidade ou, pelo menos, de uma discrição que os protege de eventuais problemas que venham destruir a sua paz, a sua tranquilidade.
Os "cinzentos" têm uma incrível capacidade de fazer de conta: fazem de conta que não viram nada, não ouviram nada, não sabem de nada... Por vezes, os "cinzentos" mascaram o seu faz de conta com frases bem intencionadas como "não foi comigo e eu não me intrometo na vida dos outros".
Por tudo isso, quando, apesar de todos os cuidados e de toda a proteção que julga ter, um "cinzento" é atingido duramente pela injustiça, pela humilhação ou pela agressão (nada que não tenha acontecido a outros em cuja vida os "cinzentos" não quiseram intrometer-se...), a primeira reação é de incredulidade: "Como é que isto pôde acontecer-me? Porquê a mim?" Depois, vem o grito de desespero: "Alguém que me ajude!", que tem como resposta um silêncio ensurdecedor. Só então o "cinzento" repara que todos aqueles que poderiam ouvi-lo e ajudá-lo foram sendo progressivamente eliminados com a cumplicidade dos disseram não se intrometer na vida dos outros, dos que se venderam a troco de paz e tranquilidade. E só sobraram outros "cinzentos" que travestem de frases bonitas a sua cobardia, escondendo-se rapidamente atrás das cortinas da sua zona de conforto. Há lá alguma coisa que se compare com aquela paz, com aquela tranquilidade...